Resenha: Confesso que perdi – Memórias

Juca Kfouri já é um jornalista mais do que consagrado,mas optou por contar uma história diferente: o repórter assumiu o lugar de reportado e se abre para o leitor. No livro “Confesso que Perdi – Memórias”, o jornalista conta a própria narrativa de sua vida e se desvela como ser humano, profissional e político.

Antes, é preciso dizer: é impossível escrever esta resenha sobre Juca sem ser na primeira pessoa. Cresci ouvindo os comentários de Juca Kfouri na Rádio CBN. Lembro-me ficar ansioso para saber os resultados dos jogos na noite anterior, no caminho para a escola – o horário das partidas era muito tarde para uma criança de oito anos, que estudava do outro lado da cidade.

A verdade é que Kfouri foi a minha primeira referência em jornalismo esportivo e até hoje, depois de formado, ainda é uma espécie de “ídolo”, exemplo de profissional, apesar de às vezes errar nos comentários – como todo ser humano erra, ainda mais se tratando de uma ciência tão inexata, como é o futebol.

Ganhei o livro e imediatamente me prendi aos muitos casos contados por Juca. É impossível não ouvir no fundo da mente a voz de Juca ao fundo. A sua entonação é tão própria quanto a sua escrita. O bom humor e a ironia mistura-se à seriedade e bom senso, e por vezes o jornalista não consegue esconder a emoção, como ao recordar os sustos que a saúde pregou-lhe nos últimos anos.

Em “Confesso que perdi”, Juca trata de sua carreira e de como política e futebol atravessaram de forma tão profunda a sua história. Os detalhes de bastidores muitas vezes são sórdidos – como quando ele detalha a apuração da loteria esportiva – ou bem humorados. São vários os momentos em que Juca assume a postura de boleiro ao narrar desventuras esportivas ou detalhes das coberturas de Copas do Mundo – a que eu mais me interessei foi sobre a campanha do tetracampeonato da seleção brasileira.

A atuação política de Juca também é notória. Envolvido com movimentos de luta armada na época da ditadura – mais especificamente com o grupo de apoio da Aliança Nacional Libertadora -, é emocionante os relatos sobre pessoas próximas a ele que foram torturadas e morreram dura durante o regime.

É interessante perceber o quanto a história do repórter se mistura com várias outras personalidades, tanto do jornalismo, quanto da política e do esporte. Em todas elas, percebe-se o quanto ele era influente e atuante, além de ser firme em suas convicções. Chegou a romper uma amizade sólida com Pelé, após o Rei aceitar negociar com cartolas denunciados por Kfouri.

O livro só apresenta um defeito: Juca viveu tanta coisa e tenta contar tantos fatos, que muitas vezes ele se perde, e o leitor pode ficar confuso em alguns momentos. Mas é como conversar com uma pessoa e deixa-la narrar sua história. É inevitável os fatos se sobreporem.

O capítulo que mais gostei foi o penúltimo, em que fala especificamente sobre a amizade com Sócrates (outra lenda do futebol que merece uma biografia). Ao longo de todo o livro, esse relacionamento especial entre fonte e repórter é bastante claro. Mas no fim, percebe-se a emoção de Kfouri ao contar sobre o amigo.

É bom também as narrativas sobre o Corinthians, time do coração de Juca. Desde a democracia corintiana, passando por algumas desventuras vividas durante o jejum de 27 anos do alvinegro, chegando à glória máxima da conquista da Libertadores e Mundial em 2012. Em todos os momentos, repórter e torcedor convivem pacificamente, sem deixar o profissionalismo de lado. Um verdadeiro golpe nos defensores da objetividade e imparcialidade esportiva.

 

Livro: Confesso que perdi – Memórias
Autor: Juca Kfouri
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Biografia
Ano: 2017
Nº de páginas: 248

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