Liga da Justiça (Justice League, 2017) – Crítica

Duas crianças caminham em direção ao Superman. Nós não as vemos, apenas ouvimos. Estamos enxergando o último filho de Krypton através da lente do celular manuseado por elas. Seu semblante, satisfeito ainda que preocupado, fala de outro dia salvo. Efusivos, os garotos disparam toda sorte de perguntas, às quais sequer o esperam responder. Eventualmente, chegam em: “O que é a sua coisa preferida sobre a Terra?”. Clark é pego de surpresa. Fica confuso. Desvia o olhar e, segundos depois, como quem teve uma epifania, sorri. A tela escurece, e neste embrulho agridoce encerra-se o rápido prólogo de Liga da Justiça (Justice League, 2017).

O que vemos na sequência é um planeta de luto pela morte do referido herói, premissa estabelecida em Batman V Superman (Idem, 2016). O mundo está vulnerável, as pessoas estão assustadas. Essa deterioração social é retratada com uma melancolia lenta em vez da habitual correria que se atribui ao caos. A tonalidade lúgubre firmada nesse prelúdio parece condizente com o trabalho que Zack Snyder, já na direção de seu terceiro filme dentro do universo da DC, vem realizando nos estúdios da Warner Brothers. E, de fato, os próximos minutos reforçam alguns traços que viemos a considerar característicos da franquia, vistos também no predecessor aqui mencionado: os ares sombrios das cidades, endossados tecnicamente por uma paleta de cores escura e, na atuação, pelo embrutecido Bruce Wayne, cuja desilusão agora é partilhada pelo restante do mundo, que parece ter entrado numa resignação irreversível depois da perda de seu principal protetor.

Há quem louve essa pegada mais pesada e o ritmo desacelerado. Apontam como uma forma de fidedignidade à proposta da DC Comics. Para outros, contudo, a seriedade dos filmes sempre foi indesejada; torna-os cansativos, maçantes. A tentativa de jogar um biscoito para este segundo grupo, com Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016), foi desastrosa. Uma bagunça que, visando agradar a gregos e troianos, acaba desagradando a todos. Era caso de chutar o balde e voltar ao padrão, ainda que o padrão não estivesse dando os melhores resultados, certo? Não exatamente. Como o Aquaman saberia, há de se considerar o fluxo das marés. O sólido sucesso da Marvel com seus lançamentos recentes (Guardiões da Galáxia 2 e Thor: Ragnarok) se dá pelo quão pouco eles levam os arcos de suas respectivas tramas à sério, abrindo espaço para refrescar o quase saturado universo Avengers com novas doses de humor e reconfiguração na sempre agradável dinâmica entre heróis. Snyder, saindo da zona de conforto, mira todos os seus esforços nisso.

Para o bem ou para o mal, a atmosfera carregada e obscura que vinha sendo construída chega ao fim. A aparição dos novos heróis, em especial de Flash (Ezra Miller), garante o início de uma nova fase nos filmes da DC, onde o alívio cômico deixa de ser um recurso secundário e usado com moderação para se tornar o foco. Nem mesmo o sisudo Batman de Ben Affleck sobrevive para além dos primeiros momentos do longa, dando lugar a uma personalidade mais aberta no desenrolar da história e até mesmo se rendendo à troca de gracejos com seus aliados. O mesmo vale para a seriedade/formalidade do Superman de Cavill, que aos poucos vai sendo abandonada. O real super poder de Barry Allen parece ser derreter o gelo do coração de homens carrancudos. Mas vamos ao que importa: isso funciona? O filme é genuinamente divertido ou temos duas horas de um grupo forçado fazendo piadas ruins? Embora seja cedo para afirmações definitivas sobre a dinâmica da Liga – a sequência prevista para 2019 terá muito a nos dizer -, há um triunfo parcial aqui. Os super-heróis se encaixam. Interagem com autenticidade e conseguem, sim, cativar e divertir, na maior parte do tempo. Com fortes ressalvas ao ocasional exagero – Ezra Miller protagoniza ora momentos genuinamente divertidos, ora cenas dignas de Didi Mocó dando joinha para a tela depois de uma piada escrachada.

No terreno do nem-tudo-são-flores habita, ainda, o Lobo da Estepe. Trata-se de um desses vilões CGI tão pouco memoráveis que por vezes faz com que você torça por ele, na esperança de que se o invasor concluir seu objetivo rapidamente, a cena acabará logo. Fãs dos grandes vilões da DC certamente não ficarão felizes. Ao público não-aficcionado e que de algum modo se incomodava com a rigidez dos filmes anteriores, contudo, Justice League provavelmente agradará. E tendo rechaçado o maior de seus fantasmas – a possibilidade uma equipe apática e sem química (já que, convenhamos, isoladamente nem Batman e nem Superman eram grandes coisas de se ver) -, há espaço para um cuidadoso otimismo em relação ao futuro.

7.0/10

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